tertúlias Sociais (Post-it)
“(…) quando se exclui metade da população de funções que visam o seu próprio governo, cria-se um défice informacional de género logo no topo. Temos de entender que, quando se trata de governação, os “melhores” não são necessariamente “os que têm dinheiro, tempo e confiança imerecida por terem andado na escola e na universidade certa”. Quando se trata de governação, os melhores são os melhores para o todo, como grupo de trabalho. E, neste contexto, melhor significa diversidade (…) temos de parar de agir como se a igualdade de oportunidades teórica e legal fosse a mesma coisa que a verdadeira igualdade de oportunidades (…) temos de implementar um sistema eleitoral com base em dados concretos, que seja concebido de molde que garanta que há um grupo diversificado de pessoas na sala quando é preciso decidir as leis que nos governam a todos. (…)”
Fonte: Livro de Caroline Criado Perez «Mulheres Invisíveis», Relógio D’Água, julho de 2020
“(…)
A autoconsciência por parte de uma pessoa bondosa pode ser uma coisa boa (…), mas o que é lamentável é que é tanto mais difícil ser bondoso quanto mais autoconsciente se é. Costuma dizer-se que, com o progresso da civilização, a crueldade desaparece e as relações entre os homens tornam-se mais cordiais. Trata-se de um grande erro. Como podem tornar-se cordiais quando a autoconsciência humana é tão forte? Pode parecer pacífico e calmo à primeira vista, mas na realidade as relações entre os homens são dolorosas, como dois lutadores que se debatem no centro de uma arena, imóveis um contra o outro. À primeira vista, parecem tão calmas quanto possíveis, mas em si mesmas, são como ondas furiosas.
– Antigamente, as discussões eram resolvidas com violência, o que lhe dava uma espécie de inocência, ao passo que, hoje em dia, requerem inteligência e astúcia, o que aumenta a autoconsciência (…)
– Assim, estamos ligados pela pobreza quando somos pobres, pela riqueza quando somos ricos, pela tristeza quando estamos tristes e pela felicidade quando estamos felizes. Um génio é derrubado pelo seu talento, um cientista é derrotado pela sua ciência, e uma pessoa de temperamento explosivo (…) se aproveitarmos os seus acessos de raiva, precipita-se às cegas e cai vítima de trapaceiros … (…)”
Fonte: Livro de Natsume Sóseki «Eu Sou Um Gato», Editorial Presença, 1.ª edição, setembro de 2023
“(…)
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
(…)”
Fonte: Fernando Pessoa «O Guardador de Rebanhos», título de Alberto Caeiro, Publicação CentroAtlântico, 2.ª edição, novembro de 2014
“(…)
CENA II – Jardim de Capuleto
(entra ROMEU)
ROMEU. – Só se ri das cicatrizes aquele que nunca sentiu uma ferida.
(Julieta aparece à janela.)
Mas … devagarinho! Qual é a luz que brilha através daquela janela? É o oriente, e Julieta é o Sol. Ergue-te, ó Sol resplandecente, e mata a Lua invejosa, que já está fraca e pálida de dor ao ver que tu, sua sacerdotisa, és muito mais bela do que ela própria. Não queiras mais ser sua sacerdotisa, já que tão invejosa é! As roupagens de vestal são doentias e lívidas, e somente os loucos as usam. Deita-as fora! Esta é a minha dama! Oh, eis o meu amor! Se ela o pudesse saber! Está a falar! … Não, não diz nada; mas isso que importa? O seu olhar é que fala e eu vou responder-lhe … Sou ousado de mais; não é para mim que ela fala. Duas das mais belas estrelas de todo o firmamento, quando têm alguma coisa a fazer, pedem aos olhos dela que brilhem nas suas esferas até que elas voltem. Oh! Se os seus olhos estivessem no firmamento e as estrelas no seu rosto! O esplendor da sua face envergonharia as estrelas do mesmo modo que a luz do dia faria envergonhar uma lâmpada. Se os seus olhos estivessem no Céu, lançariam, através das regiões etéreas, raios de tal esplendor que as aves cantariam, esquecendo que era noite. Vede como ela encosta a face à sua mão. Oh! quem me dera ser a luva dessa mão, para puder tocar a sua face.
JULIETA. – Ai de mim!
(…)”
Fonte: Do livro «William Shakespeare – Romeu e Julieta», livros de bolso IB165, Publicações Europa-América, 3.ª edição, Janeiro de 2003
O Amor
“Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?”
Fonte: excerto de rimas, ed. de 1595, da obra-prima Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, Do livro «Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Século XIII ao Séc. XXI», Porto Editora, abril de 2010
“(…) ajustou bem as plantas dos pés ao solo, como as das estátuas nos seus pedestais, com ambas as mãos vibrou umas másculas palmadas no tórax, para lhe tirar o som, e não pôde resistir à tentação de dizer em voz alta, acompanhada de gestos dos braços estendidos para fora da janela por cima do telhado:
– As ocasiões não se procuram, encontram-se. E quem é, além de nós mesmos, que lhes há-de dar o a propósito? Só quem não há-de encontrar-se antes de chegar ao fim é que foge da realidade com medo de ser mordido por ela! Mas eu não tenho medo de viver. O meu medo é incomparavelmente maior do que esse: tenho medo de não viver!
Os olhos ficavam-lhe no céu. Porque não lhe teriam falado disto há mais tempo?! Oh, admirável destino: poder obedecer sem ser a homens!
O infinito era-lhe acessível. (…)”
Fonte: Do livro «Nome de Guerra », de José de Almada Negreiros, Assírio & Alvim, 1.ª edição, setembro de 2001
“(…) Há cinco espécies de coragem, assim denominadas segundo a semelhança: suportam as mesmas coisas, mas não pelos mesmos motivos. Uma é a coragem cívica: provém da vergonha; a segunda é própria dos soldados: nasce da experiência e do facto de conhecer não como dizia Sócrates – os perigos, mas os recursos contra eles; a terceira brota da falta de experiência e da ignorância, e por ela são induzidas as crianças e os loucos, este quando enfrentam o que lhes aparece pela frente, aquelas quando pegam em serpentes. Outra espécie é a de quem tem esperança: graças a ela, arrostam os perigos aqueles que, muitas vezes, tiveram sorte e os ébrios; o vinho, de facto, excita a confiança. Outra ainda dimana da paixão irracional, por exemplo do amor e do ímpeto. (…)”
Fonte: Do livro «Ética a Eudemo», de Aristóteles, Imprensa Nacional Casa da Moeda, SA., 1.ª edição, Novembro de 2019
“(…) O sol não está a doidice de julho e agosto, corre mesmo uma fresca aragem, e onde quer que a gente ponha os olhos, daqui deste alto ponto que em tempos doutro tempo terá servido de atalaia, tudo são verdes searas, não há espetáculo mais capaz de desafogar as almas, só por dureza de coração se não sentiria o afago da felicidade. Olhando a esta mão, o mato é um jardim sem rega nem jardineiro, são tudo plantas que tiveram de aprender à própria custa os modos de conciliar-se com a natureza, com esta pedra bruta que resiste à penetração das raízes, e talvez por isso, por esta energia obstinada em lugares donde se afastam os homens, aqui onde a luta é entre o vegetal e o mineral, são as essências tão penetrantes, e quando o sol escalda a colina, todos os perfumes se abrem e aqui infinitamente adormeceríamos, talvez morrendo com o rosto sobre a terra, enquanto as formigas, como os cães levantando a cabeça, avançam protegidas por máscaras de gás, pois ali é também o seu lugar de viver. (…)”
Fonte: Do livro «Levantado do Chão», de José Saramago, Porto Editora, 1.ª edição Julho de 2014, reimpresso em Dezembro de 2023
“(…) A liberdade é a liberdade de pecar e a piedade consiste em, por amor a Deus, que teve de a conceber, não fazermos uso da liberdade. Era assim que as coisas saíam, de modo algo tendencioso, algo malévolo, se as aparências não enganavam. Em suma, irritava-me. Não gosto que alguém queira ter tudo, tire as palavras da boca do oponente, as vire do avesso e confunda assim os conceitos. Hoje, isso acontece com o maior dos desaforos e é a razão principal do meu recolhimento. Certas pessoas não deviam falar de liberdade, razão, humanidade, deviam deixar-se disso por motivos de higiene. (…)”
Fonte: Do livro «O Doutor Fausto», de Thomas Mann, tradução de António Sousa Ribeiro, Relógio D’Água, Março de 2021
“(…) Procurou-se durante muito tempo conferir à vida uma originalidade absoluta, separando nela a matéria orgânica do substrato mineral: mas rapidamente se percebeu que não há diferença de natureza entre o mundo inerte do inorgânico e a dinâmica da vida. Onde situar então a originalidade?
Se existe uma lei própria da Vida, conferindo-lhe propriedades originais, é sem dúvida em torno do conceito de código genético que devemos procurá-la.
(…)”
Fonte: Do livro «O Ovo e a Galinha – Histórias do Código Genético», de Antoine Danchin, tradução de Ana Luísa Faria, Relógio D’Água, 1993
“(…) o vento a que soltaste as velas ao deixares a praia, dele não deves servir-te, agora, depois de te tornares senhor do alto-mar.
Enquanto dá passos incertos o novo amor, deve buscar no uso as suas forças; se bem o souberes alimentar, com o tempo ficará firme.
O touro que te mete medo, costumavas tu, quando era vitelo, fazer-lhe festas; a árvore à sombra da qual repousas, foi, antes, um arbusto;
nasce bem delgado, mas ganha forças; à medida que avança, o rio e, por onde passa, uma imensidão de correntes vai recebendo.
Faz com que se acostume a ti; nada tem mais força que o hábito; até a alcançares, não fujas a nenhum dissabor; que te veja a todo o tempo, que a todo o tempo te escute, que a noite e o dia lhe mostrem o teu rosto.
Quando tiveres mais funda certeza de que pode ter saudades tuas, quando, por estares longe e ausente, vieres a ser razão de cuidado, dá-lhe descanso; o campo em pousio devolve com lucro o que lhe foi confiado, e a terra árida absorve melhor a chuva que cai do céu. (…)”
Fonte: Do livro «Arte de Amar», Públio Ovídio Nasão, tradução de Carlos Ascenso André, Editora Schwarcz, LTDA, 2011
“(…) Preciso de fazer um inventário rápido do universo, como o homem que sonha e tenta explicar o absurdo da sua situação confirmando que sonha. Preciso de fazer participar na minha emoção o espaço e o tempo inteiros para iludir, assim, a sua mortalidade e ajudar-me na luta contra a degradação total, o ridículo e o horror extremos de ter engendrado numa existência finita um infinito de sensação e pensamento (…) A praga da batalha e do trabalho baixa o homem ao nível do varrão, do animal que grunhe e vive obcecado pela conquista do alimento (…)”
Fonte: Do livro «Fala, Memória», Vladimir Nabokov, tradução de Aníbal Fernandes, Relógio D´´Agua, Fevereiro 2013
“(…) De facto, gostava muito de flores, no sentido vulgar de saber como são belas e como a tornavam bonita. Amava a sua beleza, a sua vivacidade, e também a sua tristeza, mas de fora, como uma atitude da própria beleza. Quando as flores já não estavam frescas, deitava-as fora como um vestido em desuso. (…)”
Fonte: Do livro «A Confissão de Uma Jovem», Marcel Proust, Editorial Teorema, Maio 2003
“(…) Os verdadeiros génios de outrora tinham o poder de abrir as portas do infinito, de tornar possíveis todas as coisas, de pôr ao alcance dos homens todas as maravilhas; como era banal, em contrapartida, este fantasma moderno, este descendente degradado de antepassados poderosos, este débil escravo de uma lâmpada do século vinte. (…) Ficou à janela da sua infância a olhar o mar da Arábia. A Lua estava cheia; o luar, estendendo-se dos rochedos de Scandal Point até ao horizonte longínquo, criava a ilusão de um caminho de prata, como uma risca na cabeleira cintilante das águas, como uma estrada de terras miraculosas. (…)”
Fonte: Do livro «Os Versículos Satânicos», Salman Rashdie, D.Quixote, 13.ª edição: Junho 2021
“(…)
Um homem senta-se sozinho em um quarto e escreve.
Quer fale o livro de solidão, quer fale de companheirismo, é forçosamente um produto da solidão.
A. senta-se em seu quarto para traduzir o livro de outro homem, e é como se entrasse na solidão desse homem e a transformasse em sua própria solidão.
Mas sem dúvida isso é impossível. Pois, uma vez que a solidão abre uma brecha, uma vez que outro adota essa solidão para si, não é mais solidão, mas uma espécie de companheirismo.
Mesmo que só exista um homem no quarto, já existem dois.
A. se imagina como uma espécie de fantasma daquele outro homem, que está ali e não está, cujo livro é e não é o mesmo livro que ele está traduzindo.
Portanto, diz para si mesmo, é possível estar e não estar sozinho ao mesmo tempo.
(…)”
Fonte: Do livro «A Invenção da Solidão», Paul Auster, Editora Schwarcz, 2020
“(…) Estamos sempre achando alguma coisa, não é, Didi, para dar a impressão de que existimos? (…)”
Fonte: Do livro «Esperando Godot», Samuel Beckett, Editora Schwarcz, 2021
“(…) Tenho por mais cruéis e daninhas estas unhas que as passadas (unhas temidas), porque os tímidos e covardes, para se assegurarem, fazem maior estrago que os temidos e valentes, que levam carta de seguro em seu braço. Um leão contenta-se com a presa que lhe basta para aquele dia, ainda que tenha diante das unhas muito mais em que as possa empregar. A raposa, quando dá em um galinheiro, tudo degola e despedaça, até o supérfluo. Nem há outra causa desta disparidade, senão que a raposa é covarde e o leão é generoso e valente. Tais são as unhas tímidas, maiores danos causam com seu temor que as temidas com sua potência. (…)”
Fonte: Do livro «arte de furtar», escrito por um anónimo no século XVII, uma publicação de edições Afrodite, Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa 1970
“(…) E um calafrio de terror percorreu a medula dos meus ossos e o meu sangue parou nas minhas veias, e o meu coração cessou de bater. E o ancião, que tudo sabia, compreendeu o meu sofrimento, e tirou a mão de sobre as minhas pálpebras, e os meus olhos se abriram de novo. E um manto de trevas impenetráveis se desenrolou subitamente diante dos meus olhos, como diante dos olhos de Tobias, quando o Senhor quis provar a sua virtude. E eu percebi que a vida fugia dos meus sentidos, a caí de face contra a terra com a inércia de um corpo sem vida. (…)”
Fonte: Obra “De Meditação” de Gonçalves Dias, excerto de Global Editora, 5.ª reimpressão, 2021
“(…) A melancolia é impossível de combater porque, a partir do momento em que nos aventuramos no mundo, teremos sempre saudades de tudo. Do que fizemos e do que não fizemos, de quem se cruzou no nosso caminho e de quem jamais conseguiremos encontrar. Cuidar das plantas no nosso jardim é prolongar a existência a criaturas que hão-de morrer quando nos esquecermos delas; é querer fazer com que o amor dure mais tempo para, quando nos virmos livres desta vida de uma vez por todas, partirmos de coração a transbordar de tudo o que deixamos para trás (…)”
Fonte: Livro de João Tordo “Biografia involuntária dos Amantes”, Penguim Random House, 1.ª Edição, Novembro 2016
“(…) A característica mais notável entre os seres vivos é que estão divididos em espécie que são, muitas delas incrivelmente especializadas em desempenhos particulares, muita vezes complicados, dos quais particularmente dependem para a sobrevivência. Um jardim zoológico é quase uma exposição de curiosidades e seria ainda mais se pudesse incluir uma panorâmica da história da vida dos insetos. A não especialização é a exceção. A regra é a especialização em truques peculiares deliberados nos quais “ninguém teria pensado se a natureza não o tivesse feito”. É difícil de acreditar que todos eles resultaram da “acumulação casual” darwiniana. Quer queiramos ou não, ficamos com a impressão de que forças ou tendências nos afastam, do “puro e simples” em certas direcções rumo ao complicado. O “puro e simples” parece representar um estado de coisas instável. (…)”
Fonte: Palestra de Erwin Schrodinger transposta para o Livro “Mente e Matéria” – tradução de Vera de Paula Assis e Jesus de Paula Assis, Editora Unesp, Cambridge University Press, 1977
“(…)
Há palavras que têm sombra de árvore
Outras que têm atmosfera de astros
Há vocábulos que têm fogo de raios
E que incendeiam onde caem
Outros que se congelam na língua e se desfazem ao sair
Como aqueles cristais alados e fatídicos
Há palavras com ímanes que atraem os tesouros do abismo
Outras que se descarregam como vagões sobre a alma.
(…)”
Fonte: Livro de Vicente Huidobro “Altazor” – tradução de Diogo Fernandes, Antítese Editores, Maio 2018
“(…)
na altura, as assembleias da intelectualidade burguesa eram muito mais frequentes do que nos nossos dias, uma vez que ela ainda não reconhecera os seus limites. Nós, porém, podemos dizer que sentíamos esses limites, se bem que ainda fosse preciso passar muito tempo até amadurecer a percepção de que ninguém pode melhorar a escola e a casa paterna sem destruir o Estado que tem necessidade de que elas sejam más.
(…)”
Fonte: Livro de Walter Benjamin “Crónica Berlinense” – tradução de António Sousa Ribeiro, Relógio D’Água, Dezembro 2021
“(…)
Cedo comecei a sonhar e a ter pena da minha pátria. Aprendi que havia outras sem medo, com leis justas e menos desigualdade, menos desespero, os seus cidadãos e governantes mais interessados no futuro do que em glórias do passado.
…
Não me entusiasmou depois o florescer dos cravos, e espero o investigador que faça a barrela desse momento histórico, mostre os interesses que a ele levaram, ponha nome nos fantoches e em quem segurava os cordéis. (…) Curioso país, endividado até às orelhas, os governos a fingir que tudo se resolve, outros pagarão
(…)”
Fonte: Livro de J. Rentes de Carvalho “O País do Solidó” – Crónicas, Quetzol Editores, 2021
“(…)
Enfim, quando o Estado, perto de sua ruína, não subsiste mais senão por uma forma ilusória e vã, quando o vínculo social está rompido e o mais vil interesse ostenta descaradamente o nome sagrado do bem público, então a vontade geral torna-se muda; todos, guiados por motivos secretos, não opinam mais como cidadãos, como se o Estado nunca tivesse existido, e são aprovados, sob o nome de leis, decretos iníquos que têm por finalidade apenas o interesse particular.”
Fonte: Ensaio de Jean-Jacques Rousseau “O Contrato Social” (publicado pela primeira vez em 1762) numa edição de L&PM Editores, tradução de Paulo Neves, agosto de 2007
“(…) Na sociedade concorrencial a publicidade tinha por função orientar o comprador pelo mercado, ela facilitava a escolha e possibilitava ao fornecedor desconhecido e mais produtivo colocar seus outputs. Hoje, quando o mercado livre vai acabando, os donos do sistema se entrincheiram nela. Ela consolida os grilhões que encadeiam os consumidores às grandes corporações. Só quem pode pagar continuamente as taxas exorbitantes cobradas pelas agências de publicidade (…), isto é, quem já faz parte do sistema ou é cooptado com base nas decisões do capital bancário e industrial, pode entrar como vendedor do pseudo-mercado. Os custos de publicidade, que acabam por retornar aos bolsos das corporações, poupam as dificuldades de eliminar pela concorrência os intrusos indesejáveis.”
Fonte: Inspirado no livro “Dialética do Esclarecimento”, de Adorno & Horkheimer, Editora Schwarcz, 2021
“(…) aquele que descarta a própria liberdade e a troca por dinheiro age contra a humanidade. A vida não é para ser sobrevalorizada mais do que o facto de que, enquanto se vive, deve-se viver como um homem, isto é, não numa condição de bem-estar, mas de modo a não desonrar a humanidade e também a viver dignamente como um homem. Tudo o que nos priva disso torna-nos incapazes de qualquer coisa e nos anula como ser humano”
Fonte: Inspirado no livro “Lições de Ética”, de Immanuel Kant, Editora UNESP, 2018
Horácio nas suas Sátiras indica como considerar os vícios dos amigos:
É Mesquinho? Diga-se antes económico.
É fanfarrão, vaidoso? Prazenteiro deseja parecer, em demasia.
É livre e rude? Franco e bravo o julga.
É ardente, arremessado Activo se chama.
Quando assim é ganham-se e conservam-se os amigos. Mas diferente é o nosso proceder – desfiguramos até a virtude – e assim cobrimos de orpe ornato um vaso puro e belo.
Fonte: Inspirado no Livro “Sátiras”, Edipro, 1.ª edição 2011
É na Europa, no Japão, na América do Norte, que os países subdesenvolvidos vendem os seus bens primários e compram bens de produção. Dos países industrializados capitalistas, recebem a quase totalidade da ajuda que pedem em grandes clamores. Que pedem eles emprestado à União Soviética, senão a ideologia do imperialismo, requisitório contra aqueles a quem tudo pedem, apologia daqueles de que nada obtêm?
Fonte: Livro “Memórias” de Raymond Aron, Guerra & Paz, 1.ª edição Fevereiro 2018
É difícil na vida achar alguém
Que seja na verdade um grande amigo,
E se assim penso – e com tristeza o digo,
É porque o sei, talvez, como ninguém.
Se a amizade é um bem – e se esse bem
Traz o conforto de um divino abrigo,
Por mim, direi, que nunca mais consigo
Iludir-me nas graças que ele tem.
Afectos, sacrifícios, lealdade!,
Tudo se apaga ou fica na memória
Se a ilusão dá lugar à realidade.
E ai daqueles que pensam na excepção:
Acabam por ficar dentro da história
De que a vida é um sonho e uma traição.
Fonte: António Botto, excerto de Sonetos (3), do livro Canções e Outros Poemas, edição Quasi, 2008
“ Balanço patriótico:
Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, – reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta; (…)”
Fonte: Livro “Pátria”, «anotações» de Guerra Junqueiro, Publicações Europa-América, lb404
“(…) Alguns têm de se deter e conservar o que fica nas margens do rio.
– Dizes isso de uma forma tão estranha!
– Mas é a verdade, minha filha. Nós não vivemos apenas na nossa própria época. Também transportamos a nossa história connosco. Não te esqueças de que tudo o que vês aqui foi outrora novo em folha. Esta pequena boneca de madeira do século XVI talvez tenha sido feita para o quinto aniversário de uma menina. Talvez pelo seu velho avô …
Depois, chegou à adolescência, Sofia. Depois, tornou-se adulta e casou-se. Talvez ela própria tenha tido uma filha que herdou esta boneca. Depois, envelheceu, e um dia morreu. Talvez tenha tido uma vida longa, mas deixou de existir. E nunca mais regressará. No fundo, ela fez aqui apenas uma curta visita. Mas a boneca está na estante. (…) Entramos num mundo lindíssimo, encontramo-nos aqui, apresentamo-nos uns aos outros – e caminhamos juntos mais um pouco. Depois, perdemo-nos e desaparecemos tão súbita e inexplicavelmente como viemos. (…)”
Fonte: Livro de Jostein Gaarder “O Mundo de Sofia”, Editorial Presença, outubro de 2021, tradução de Catarina Belo
“(…) Tenho filhos e netos, amei e fui amada, escrevi livros, ouvi música e viajei. Em princípio, poderia dar-me por satisfeita, o que infelizmente não me faz encarar a morte com placidez. Como Montaigne afirmou, com o tempo, o dilema Vida versus Morte vai-se transformando, num outro, Velhice versus Morte. Sei que as minhas células foram morrendo, as minhas articulações se tornaram rígidas e até o meu crânio diminuiu, mas nada disto conta quando se trata de pensar no fim. (…)”
Fonte: Livro de Maria Filomena Mónica “A Morte”, FFMS, Julho de 2011
“(…) Toda a sociedade é, pois, ao mesmo tempo dissociedade; ou, enunciado de outro modo, toda a sociedade humana, é, enquanto pretensão de ser sociedade, um fracasso, isto é, uma realidade enferma. Daí que, às forças e tendências dissociativas, a convivência ou colectividade tenha de opor uma força artificialmente organizada que é o poder público, em suma, o Estado. É uma ingenuidade dos anarquistas acreditar que é possível prescindir do Estado ou poder público, mas é também uma beatice, um utopismo dos juristas acreditar que o Estado é, por si mesmo, uma coisa boa a sã … O Estado é um aparelho ortopédico que a colectividade se coloca a si mesma para poder subsistir (…)”
Fonte: Livro de Ortega y Gasset “A Rebelião das Massas”, Relógio D’Agua, setembro 2019, tradução de Artur Guerra
“(…) Faz parte dessa tensão que nos estejamos a tornar cada vez mais penosamente conscientes das grandes imperfeições da nossa vida, da imperfeição tanto pessoal como institucional, do sofrimento evitável, do desperdício e da miséria desnecessária; e, ao mesmo tempo, que não nos é impossível fazer qualquer coisa para o remediar, mas que essas melhorias serão tão difíceis de alcançar quanto importantes. Esta consciência aumenta a tensão da responsabilidade pessoal, de carregar a cruz de ser humano (…)”
Fonte: Livro “A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos” de Karl Popper
“(…) em primeiro lugar os príncipes preocupam-se apenas com a guerra – arte que me é desconhecida e que não tenho desejo algum de praticar. Desprezam as artes benéficas e pacíficas. Se se trata de conquistar novos territórios, todos os meios se lhes afiguram bons: nada os detém, nem o sagrado, nem o profano, nem o crime, nem o sangue. Em contrapartida ocupam-se muito pouco da administração dos Estados que tem sob o seu domínio. Quanto aos conselhos dos Reis, aqui está aproximadamente a maneira como se compõem. Dos seus membros, uns calam-se por inépcia, e esses precisariam até de ser eles próprios aconselhados. Outros são mais dotados e sabem que o são, mas compartilham sempre da opinião dos anteriores que estão em melhores graças, e aplaudem entusiasmados as tolices que estes têm por bem propinar. Vis parasitas, só têm uma finalidade: alcançar por meio da lisonja mais mesquinha e criminosa, a protecção do favorito do Rei. Há ainda escravos do amor-próprio, que ouvem apenas a sua própria opinião, coisa nada para admirar porque a natureza leva cada homem a afagar amorosamente aquilo mesmo que cria. Assim sorri o corvo à ninhada, e o macaco aos filhos. Que acontece então nestes conselhos onde dominam a inveja, o interesse e a vaidade? (…)”
Fonte: Livro “A Utopia”, de Tomás Morus, ano: 1516
“(…) Hoje, contudo, somos obrigados a reconhecer que esses pilares da vida humana civilizada perderam a sua firmeza. Países outrora altamente considerados curvam-se hoje perante tiranos que se atrevem a afirmar abertamente: a verdade é aquilo que nos é útil! A busca de verdade por amor da verdade já não encontra razão de ser e deixou de ser tolerada. Nesses países, a governação arbitrária, a opressão e as perseguições movidas contra indivíduos, crenças e comunidades, são hoje, praticadas às claras e aceites como justificáveis ou inevitáveis. E o resto do mundo foi-se habituando a esses sintomas de decadência moral. Fracassámos no que concerne à elementar reacção à injustiça e em favor da justiça – essa reacção que a longo termo representa a única protecção que temos contra a regressão para um estado de barbárie. Estou firmemente convencido de que a apaixonada inclinação para a justiça e para a verdade contribuiu mais para melhorar a condição humana do que a argúcia e o calculismo políticos que a longo prazo apenas geram desconfiança (…)”
Albert Einstein – Livro “Como Vejo a Ciência, a Religião e o Mundo”
“(…) Mal ele lhe amouvava o noema, o clémiso acumulava-se nela e os dois caiam em hidromúrias, em selvagens ambónios, em sústulos desesperantes. Sempre que ele tentava relamar os incupelos, perdia-se numa grimúria queixosa e tinha de inrolver-se com a cara contra o nóvalo, sentindo como as arnilhas se iam espelhunando pouco a pouco, apeltroando-se e reduprimendo-se até ficarem esticadas como o trimalciato de ergomanina sobre o qual se deixaram cair umas fílulas de cariacôncia. (…)
Tremia o troc, venciam-se as marioplumas, e tudo se resolvirava num pínice profundo, em niolamas de gases argutensos, em carínias quase cruéis que os ordorreavam até ao limite das suas gúnfias.”
Fonte: O Jogo do Mundo (Rayuela), capítulo 68, de Júlio Cortázar
Não se deve esposar um determinismo rígido quanto a essas questões, pois factores outros, tais como a raça, desempenham papéis cruciais, mas a verdade é que a clara definição do ano em quatro estações distintas é civilizada e civilizadora. As nações como o Brasil, em que praticamente só existe inverno e verão, imperando a mesmice de janeiro a dezembro, parecem fadadas ao atraso e são abundantes os exemplos históricos e contemporâneos. Até culturalmente, as variações sazonais se revestem de enorme importância, eis que forçam a diversificação de interesses e actividades em função das alterações climáticas, de modo que os povos a elas expostos têm maior gama de aptidões e sensibilidade necessariamente mais apurada.
João Ubaldo Ribeiro – “Viva o Povo Brasileiro”, início do Capítulo 15
«Os livros escrevem-se para unir, por cima do próprio fôlego, os seres humanos, e assim defendermo-nos face ao inexorável reverso de toda a existência: a fugacidade e o esquecimento», expressão citada por, Irene Vallejo no seu livro fascinante “O infinito num junco”, a invenção do livro na Antiguidade e o nascer da sede de leitura. Escreve ela: Se um livro é uma viagem, o título será a bússola e o astrolábio de quem se aventura pelos seus caminhos (…) Somos os únicos animais que fabulam, que afugentam a escuridão com histórias, que aprendem a conviver com o caos graças aos relatos, que atiçam as brasas das fogueiras com o ar das suas palavras, que percorrem longas distâncias para levarem as suas histórias aos estranhos. E, quando partilhamos os mesmos relatos, deixamos de ser estranhos.
A Rã ajuda o escorpião a atravessar o rio. Como seria expectável a boleia não correu bem. A rã ficou a saber a verdadeira natureza do escorpião.
A fábula, atribuída ao grego Esopo, tem vários contadores de histórias nos nossos tempos.
Sugerimos ouvi-la, musicada, na voz e instrumento de João Suplicy em: https://www.youtube.com/watch?v=kGjxl1qOF7g
O objectivo de um plano de negócio é descrever e comunicar um projecto que tenha finalidade o lucro ou sem fins lucrativos como pode ser implementado, no interior ou no exterior de uma organização. A motivação que está por trás do plano de negócios pode ser «vender» um projecto a potenciais investidores ou a stakeholders internos à organização.
Fonte: Livro “Criar Modelos de Negócio”, escrito por Alexandrer Osterwalder & Yves Pigneur, (pag. 268)
Todos os privilégios, todos os benefícios e vantagens que podem receber pelo posto ou posição que ocupem, não vos são destinados. São destinados ao cargo que ocupam. E, quando deixarem o cargo, o que em algum momento poderá acontecer, eles deixarão a chávena de cerâmica à pessoa que vos irá substituir
Simon Sinek – Os Líderes Comem Por Último
O português é um misto de sonhador e de homem de acção, ou melhor, é um sonhador activo a que não falta certo fundo prático e realista. A actividade portuguesa não tem raízes na vontade fria, mas alimenta-se da imaginação, do sonho, porque o português é mais idealista, emotivo e imaginativo do que homem de reflexão. Compartilha com o espanhol o desprezo fidalgo pelo interesse mesquinho, pelo utilitarismo puro e pelo conforto, assim como o gosto paradoxal pela ostentação de riqueza e pelo luxo. Mas não tem como aquele um forte ideal abstracto, nem acentuada tendência mística. O português é, sobretudo, profundamente humano, sensível, amoroso e bondoso, sem ser fraco.
António Jorge Dias – “Os elementos fundamentais da cultura portuguesa” | Fonte: Revista de Direito e de Estudos Sociais, Ano VIII, Abril-Junho de 1955, n.º 2
Saber que cálculo em latim, quer dizer «pedrinha» e que os pitagóricos as usaram antes da invenção dos números, não nos permitem dominar os mistérios da álgebra; saber que hipócrita era actor, e pessoa, máscara, não é nenhum instrumento valioso para o estudo da ética.
Jorge Luis Borges – “Nova Antologia Pessoal”
A moral da história é que o mundo ralha de tudo, tenha ou não razão. Indo os três em viagem, se o rapaz vai em cima do burro, critica-se o facto de ser forte e deixar o velho ir a pé. Se no dorso do burro vai o velho, critica-se o facto de sendo o burro tão forte, o rapaz tenha de ir a pé. Se ambos (rapaz e velho) vão a pé fica a questão, afinal para que serve o burro. Mas se ambos montam o burro não deixam de ouvir que querem matar o pobre do burrinho. Neste contexto, decidem ambos levar o burro às costas, mas não deixam de ouvir: Olhem dois loucos varridos! fazendo o mundo às avessas tornados burros do burro
La Fontaine – Fábulas, livro IV, 7
A imagem de um País assenta de modo idêntico nos mesmos três pilares: desígnio (profissão), imagem visual e “alma”.
(…) Alma – é o conjunto das características da população, os seus costumes, tradições, valores culturais e sociais. Os traços de identidade colectiva, as suas histórias, os seus ícones. A sua ligação com o espaço e o tempo.
Tó Romano – e o seu livro, uma preciosidade, “Eva Dream”, slide XIX
Na jurisprudência, é uma ameaçadora e agitada massa preta dinâmica que serpenteia como um ominoso véu em torno das três “Fúrias da Lei”, acentuando a carne crua e o cabelo ruivo entrelaçado com enfeites dourados das femmes fatales contra um fundo de escuridão. Mais uma vez somos confrontados com uma interpretação muito ambígua do tema em que a distinção entre o bem e o mal, entre a vítima e o perpetrador, entre a lei e o despotismo está toldada. Esta tensão entre a opulenta ornamentação das três personificações da Verdade, Justiça e Lei e o estado de espírito sombrio do quadro no seu todo transforma-o naquilo que Hevesi chamou «um inferno luxuoso, onde os dourados instrumentos de tortura dourados estão incrustados com diamantes e os mártires sangram rubis»
Fonte: Livro de Tobias G. Natter – “Gustav Klimt”
Os direitos do homem e da criança que enchem as bocarras dos pavões da política, servindo-lhes de muleta, tantas vezes, às mesquinhez de sórdidos e repugnantes interesses, são hoje, na prática, letra morta, face ao abandono injusto e escandaloso em que muitos são tidos, ao contraste persistente e ignóbil dos muito ricos e dos muitos pobres, ao compadrio revoltante que vem sendo moda, ao matraquear das armas que cerceia a razão.
(…) É frequente numa qualquer curva da estrada da vida, a ingratidão e a perfídia surpreender-nos a espaços, dando-nos o mote do viver do agora e do amanhã.
Carlos Sá e Silva – “Revista Ribal, Fevereiro/1991, série II – N.º 6”
Portugal rege-se nas relações internacionais pelos princípios da independência nacional, do respeito dos direitos do homem, dos direitos dos povos, da igualdade entre os Estados, da solução pacífica dos conflitos internacionais, da não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados e da cooperação com todos os outros povos para a emancipação e o progresso da humanidade.
Ponto 1 do artigo 7.º da Constituição da República Portuguesa
(…) A pergunta sobre se era mais importante uma obra de arte ou a miséria de dez mil pessoas deu lugar a outra: se dez mil obras de arte pesam tanto quanto a miséria de um único ser humano. Alguns artistas mais robustos lembravam que o artista não se pode considerar assim tão importante. Era preciso acabar com a sua autoglorificação! E exigia-se: que o artista seja faminto e social! E outro: a vida é a maior e a única obra de arte! Uma voz forte interveio: O que une não é a arte, é a fome! Uma outra, em tom de compromisso, lembrou que o meio mais eficaz contra o excesso de auto-estima na arte era uma base artesanal saudável.
(…)
Finalmente, chegaram todos a um acordo, porque era preciso ir para casa com uma conclusão no bolso. Concordaram assim, uns com os outros numa moção que dizia mais ou menos o seguinte: O tempo presente está cheio de expectativas, é impaciente, descontrolado e infeliz, mas o Messias por quem esperançadamente espera não está ainda à vista.
Robert Musil – “O Homem Sem Qualidades I”
O «povo» que exerce o poder não é sempre o mesmo povo sobre quem o poder é exercido; e o «governo de si” de que fala não é o governo de cada um por si mesmo, mas sim o governo de cada um por todos os outros. Além do mais, a vontade do povo significa, na prática, a vontade da parte mais numerosa ou mais activa do povo: a maioria, ou aqueles que conseguem fazer-se aceitar como a maioria; consequentemente, o povo pode desejar oprimir uma parte do povo; e são tão necessárias precauções contra isto como contra quaisquer outros abusos de poder.
John Stuart Mill – “Sobre a Liberdade”, 1859
Este problema da vocação de cada um é, talvez, o mais grave e mais profundo dos problemas sociais, aquele que está na base de todos os outros. A chamada, com propriedade, questão social talvez seja, mais do que um problema de distribuição das riquezas, dos produtos de trabalho, um problema de distribuição de vocações, de modos de produzir. Não tem sido pela aptidão – quase impossível de averiguar sem antes ser posta à prova, e mal especificada em cada homem, uma vez que, para a maioria dos ofícios, o homem não nasce, faz-se -, não tem sido pela especial aptidão, mas por razões sociais, políticas, rituais, que se tem vindo a determinar o ofício de cada um.
Miguel de Unamuno – “Do Sentimento Trágico da Vida”
Um grupo de macacos ajuda uma onça a sair de um poço, mas um deles acaba nas garras da fera. Dizia ela “Compadre macaco, tenha paciência. Estou com fome e você vai fazer-me o favor de deixar-se comer” Os pedidos do macaco eram infrutíferos, mas alguém se lembrou que o conflito poderia ser resolvido pelo juiz de direito.
“É juiz de direito, entre os animais, o jabuti, cujas audiências são dadas à borda dos rios, colocando-se ele em cima de uma pedra. Os dois chegaram e o macaco expôs as suas razões. O jabuti ouviu-o e no fim ordenou: Bata palmas. Apesar de seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas. Chegou a vez da onça, que também expôs as suas razões e motivos. O juiz, como da primeira vez, determinou ao felino.
– Bata palmas.
Lima Barreto – “Triste Fim de Policarpo Quaresma”
De pura presença geográfica, natural, lugar de um destino certo ou incerto entre vida e morte, a Pátria converte-se em realidade imanente da qual cada cidadão consciente é solidário e responsável. Assim como no domínio político lhe é pedido que directa ou indirectamente a assume pelo voto, assim culturalmente, o que a Pátria é ou não é, interpela o escritor com uma força e uma urgência antes desconhecidas. Cada escritor consciente da nova era escreverá, como Fichte, o seu pessoal discurso à sua nação, cada um se sentirá profeta ou mesmo messias de destinos pátrios, vividos e concebidos como revelação, manifestação e culto das respectivas almas nacionais
Eduardo Lourenço – “Labirinto da Saudade”
… a raça humana sempre labuta em vão e inutilmente e nestes vãos cuidados consome o seu tempo de vida. Não admira, pois a sua ganância não conhece limites, nem sabe de todo até onde pode crescer o prazer verdadeiro.
Lucrécio – “Da Natureza das Coisas”
Rigor comercial do princípio e do fim das cartas:
Dear Sirs – Messieurs – Amigos e Snrs.,
Your faithfully – … nos salutions empressées …
Tudo isto não é só humano e limpo, mas também belo,
E tem ao fim um destino marítimo, um vapor onde embarquem
as mercadorias de que as cartas e as facturas tratam.
Complexidade da vida! As facturas são feitas por gente
Que tem amores, ódios, paixões políticas, às vezes crimes –
E são tão bem escritas, tão alinhadas, tão independentes de tudo isso!
Há quem olhe para uma factura e não sinta isso.
(…)
Venham dizer-me que não há poesia no comércio, nos escritórios!
Ora, ela entra por todos os poros … Neste ar marítimo respiro-a,
Porque tudo isto vem a propósito dos vapores, da navegação moderna,
Porque as facturas e as cartas comerciais são o princípio da história
E os navios que levam as mercadorias pelo mar eterno são o fim.
Fernando Pessoa – “Ode Marítima”, poema de Álvaro de Campo